Cultura democratizada sem o apoio corporativo

No embalo da proposta de que arte, cultura, educação e comunicação são ideias que andam de mãos dadas e que precisam ser compartilhados, rompendo as barreiras do acesso restrito, os conceitos de cultura livre foram defendidos e debatidos durante o Diálogo Interplanetário de Cultura Livre. O evento integrou do Fórum Social Mundial (FSM), que aconteceu de 25 a 29 de janeiro, na região metropolitana de Porto Alegre (RS).

No painel Conceito de Cultura Livre, que reuniu escritores, músicos, editores, desenhistas e praticantes de muitas outras modalidades de arte em Canoas, no dia 26, várias experiências foram apresentadas e compartilhadas, tanto no que diz respeito ao uso de meios alternativos e de novas tecnologias para distribuir bens culturais com licenças livres de direito autoral, quanto em relação a novas práticas de produção, distribuição e consumo (essa, aliás, a questão central quando se fala da arte criada fora da indústria cultural) prática que se tem difundido entre as comunidades que vivem nos contornos das metrópoles.

Alan da Rosa, o “poeta da periferia”

Assim surgiu, por exemplo, a Selos Toró, uma editora criada a partir da vontade de Alan da Rosa – um “poeta da periferia” (em sua auto-definição), que vive em Taboão da Serra, na Grande São Paulo – de produzir um livro que fosse um retrato dele mesmo e de sua obra, diferente das edições comerciais e tradicionais.

Seus primeiros poemas lançados ao público foram escritos à mão, as folhas de papel reciclado unidas por fios de lã vermelha. Com o apoio de uma ONG imprimiu 500 exemplares de Vão, que foram vendidos em menos de quatro meses, nas portas de teatros, cinemas e na comunidade em que vive. Uma segunda edição esgotou-se em menos de um ano.

Isso despertou em Alan a vontade de repetir a dose, não apenas com suas obras mas também com as de outros escritores. Nascia assim a Toró.

Hoje, a editora conta com 20 títulos publicados, todos eles produzidos de forma artesanal, como o primeiro trabalho de Da Rosa (como é conhecido). “Nossos livros mesclam a arte digital e a artesania. Fazemos tudo à mão: imprimimos 600 exemplares e  costuramos a mão, ou então colocamos entre panos de chita, juta, búzios. Cada obra tem uma proposta plástica que dialoga com o texto”, explica.

Da tiragem de 600 exemplares, 480 livros vão para a bolsa do autor, que tem a função de passá-los para a frente, seja vendendo de porta em porta, seja promovendo trocas por outros produtos que necessite. Os outros 120 ficam com a editora, que também se encarrega de fazer a obra circular.

Os livros são vendidos a R$ 10,00 nas comunidades, mas normalmente têm um preço diferenciado quando comercializados nas portas de teatros, cinemas e eventos. Não há intermediários, e o autor fica com todo o dinheiro arrecadado.

A ideia de se fazer o livro circular dentro da própria comunidade vai ao encontro da proposta de desmitificar o papel do escritor, segundo Da Rosa. Ao ver que pessoas comuns editam e publicam livros, a comunidade percebe que a cultura é um direito de todos e, mais que isso, é acessível. “Tiramos o autor de um pedestal, mas isso tudo sem matar o segredo, o mistério da arte” emenda o editor.

Para ser fiel à filosofia do compartilhamento da cultura, Da Rosa – que participa do Movimento de Literatura Periférica (SP) – aponta alguns critérios para a definição dos escritores. “Não temos condições de publicar tudo o que gostaríamos, então escolhemos, principalmente autores da periferia, que vão circular com esses livros, não vão deixá-los parados em uma prateleira de livraria. Por isso damos preferência aos autores da comunidade, geralmente negros – mas não só -, e autoras da periferia que tenham uma inserção muito forte em sua comunidade. São, essencialmente, militantes do Movimento de Literatura Periférica”, explica.

Além de editar o material, a Selos Toró também edita o conteúdo das obras e o disponibiliza na internet, um recurso que Da Rosa reconhece como importante, mas ainda limitado e não suficiente. “Queremos explorar todos os recursos. Muitas vezes algo funciona maravilhosamente na rádio, mas não numa página de internet. Por isso estamos sempre numa encruzilhada, que busca entender o universo da palavra”, esclarece.

E assim, de porta em porta e com cara própria, a editora ajuda a buscar novas formas de democratização da cultura. Os livros da Selos Toró passeiam, sem problemas, pelas comunidades dos autores e pelas cercanias da metrópole. “Não temos muito problema em chegar na comunidade. Nós nos alastramos, porque somos a comunidade”, finaliza Da Rosa.